quinta-feira, 5 de novembro de 2015

EXISTE DOM DE APÓSTOLO E PROFETA EM NOSSOS DIAS?



Se você entrar no site do CONSELHO APOSTÓLICO BRASILEIRO vai encontrar um trecho que nos chama bastante a atenção sobre nosso assunto, o referido conselho se diz ser: "... um colegiado representativo das igrejas do movimento de Restauração Apostólica e Profética, que foi fundado no dia 07 de Março de 2005, na cidade de São Paulo, quando se reuniram cerca de 45 apóstolos e profetas, que contavam com um reconhecimento nacional". (o grinfo em negrito é meu). E se você for pesquisar, vai encontrar vários argumentos defensores da existência de apóstolos e profetas em nossos dias. Como por exemplo na Rede Apostólica Cristã outros propõe uma Reforma Apostólica Será que essa nova fase do neopentecostalismo está certa? A primeira fase veio com a heresia da Teologia da Prosperidade, Confissão Positiva, Maldição Hereditária, etc. Assuntos abordados aqui aqui e aqui no blog. A segunda fase veio com a unção de Toronto (o famoso reteté). Também abordado aqui no blog. A terceira fase vem agora como Movimento de Restauração Apostólica e Profética. Parece que vou ter que atualizar minha postagem sobre A Diferença entre Pentecostais e Neopentecostais Poxa, esses neopentecostais inventam de mais.


Pois bem... Respondendo a pergunta:

Os dons de apóstolos e profetas estão inviabilizados para nossa era. Pois, tinham como papel principal fundamentar as Escrituras e estabelecer as bases (fundamentos) da fé. (veja Ef.2.20). Uma vez que o cânon das Escrituras fora encerrado, não há como continuar o dom de apóstolos e profetas séculos depois. A Palavra de Deus nos revela que no período de Jesus o dom de profeta já estava em finalização: “A Lei e os Profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus”. (Lucas 16.16). O dom de profeta se restringe agora ao dom de profecia. Bem como o dom de apóstolo, se restringe agora ao dom de evangelista. 

Não faz sentido ter apóstolos e profetas hoje se a igreja de Jesus Cristo já está fundamentada. O que um suposto “apóstolo” ou “profeta” teria a fundamentar hoje? Uma nova doutrina? Outro evangelho? Quanto a isso a Bíblia tem severas admoestações (Gl.1.8,9; 1Tm.6.3-5; 2Jo.1.9,10).

Não adianta argumentar sobre o texto de Efésios 4.11 sem o contexto de Efésios 2.20. E ainda tem daqueles que argumentam a sustentação desses dons para a atualidade usando o verso 13: "Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo". Ora, o fundamento dos apóstolos e profetas é um legado deixado até que se cumpra isso que diz o verso 13. Não tem sustentação alguma esse argumento.

Vamos ler Efésio 2.20 e descrever para um melhor entendimento: "edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular" (ARA). "Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina". (ACF). Vejamos:

A igreja (a soma de todos os cristãos) edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas. Depois vem a "pedra de esquina de fundação" (gr. akrogôniaiou. Dos textos gregos): Jesus Cristo. Pronto. Tá feito. Do que a igreja precisa mais? Agora é só crescer minha gente. Chega de invencionices!

Acorda povo evangélico! Nem os Pais da Igreja quiseram ser intitulados de apóstolos. E veja que alguns deles tiveram contato direto com os apóstolos. Exemplo disso foi Policarpo. Ele foi discípulo do apóstolo João. Era bispo da igreja de Esmirna do século II d.C. Temos ainda Clemente de Roma (discípulo do apóstolo Pedro) e Inácio de Antioquia (discípulo do apóstolo João, conheceu o apóstolo Paulo e foi sucessor de Pedro na igreja em Antioquia).

Notem que o dom de apóstolo tinha características bem específicas: 

1) Seja do “tempo que o Senhor Jesus andou entre nós” (Atos 1.21) 

2) Tenha convivido com ele do “... batismo de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às alturas”. (Idem v.22) 

3) Seja “testemunha... da sua ressurreição” (idem v.22b).

4) Tenha “marca” do apostolado. Que era “semeion” (sinal), “teras” (prodígio) e “dunamis” (poder, força, habilidade). (ver 2Co.12.12).

Observação: É bom salientar aqui que o outro indicado ao apostolado em Atos 1.23, Barsabás, ele tinha todas as características para o apostolado e não foi chamado de apóstolo. E Matias tomou a vaga entre os doze.

As Escrituras chamam em seu próprio texto de “apóstolo” aqueles nos quais ela já menciona: Mateus 10.2-4; Lucas 6.13-16; Marcos 3.16-19 (os doze); Atos 1.25,26 (Matias, o substituto de Judas Iscariotes); e Romanos 1.1 (Paulo). Há citações de “falsos apóstolos” em 2Coríntios 11.13 e Apocalipse 2.2, eram “falsos” por estarem pregando heresias e também por não terem sido eleitos como apóstolos ou não terem as características do apostolado citadas acima.

Das 56 ocorrências da palavra “apóstolos" na tradução da Bíblia (ARA) a maioria se referem aos doze apóstolos, algumas a Paulo, duas aos falsos apóstolos e duas se referem: A Barnabé (ver At.14.14) e a Tiago, “irmão do Senhor [de Jesus]” (ver Gl.1.19). E tem uma má interpretação que fazem do texto de Romanos 16.7. Onde diz que Andrônico e Júnias, parentes do apóstolo Paulo, eram “notáveis entre os apóstolos”. Ora, o texto não quer dizer que eles eram apóstolos, mas que eram relevantes a vista dos apóstolos. A palavra grega de origem da tradução “notáveis” é “episêmoi”, que dar o significado de “marcado, num bom sentido, de caráter ilustre”. E “entre os apóstolos” (gr. en tois apostolois) não quer dizer que eles estavam dentro do grupo apostólico, mas que os apóstolos tinham boa referência a respeito deles. A frase que colocaria os dois parentes de Paulo dentro do grupo apostólico seria “ek tôn apostolôn” (dentre os apóstolos ou dos apóstolos). Exemplo: João 11.45: “dentre os judeus” (ARA, ARC, ACF, BKJ) ou “dos judeus” (BJ, BAM, NVI), onde aparece a mesma frase grega em todos os três tipos de manuscritos gregos (Alexandrino, Bizantino e Textus Receptus): “ek tôn ioudaiôn”. Enfim, temos ainda 18 ocorrências no singular: “apóstolo”, e só se referem a Paulo, Jesus (Hb.3.1) e a Pedro.

Falando sobre as exceções apostólicas de Barnabé e Tiago (irmão de Jesus): 
Bom, acredito que Barnabé não era “apóstolo” no sentido de pertencer ao grupo apostólico, mas no sentido amplo da palavra grega “apostolos”, que quer dizer: "um delegado, mensageiro, alguém enviado com ordens”. Pois, Barnabé foi enviado várias vezes pelos apóstolos em missões. (ver At.11.22; 12.25; At.13.2; 15.22,25; Gl.2.9). 

Outra informação digna de nota é sobre Tiago (irmão de Jesus), é sabido pela narrativa de Atos dos Apóstolos que Tiago Zebedeu, um dos apóstolos e irmão de João, foi morto pelo rei Herodes (ver At.12.1,2). Pelo visto, tendo Tiago (irmão de Jesus) características de apóstolo (por ter convivido com Jesus e viu-o ressuscitado, ver 1Co.15.7), ele passou a compor a vaga entre os Doze informalmente. Que, inclusive, a carta de Tiago, pertencente ao cânon do Novo Testamento, foi considerada de sua autoria. Ele teve importante participação do Concílio da igreja de Jerusalém sobre a questão dos gentios serem circuncidados e guardarem a lei de Moisés (ver At.15.13-22a).

Sobre o dom de profeta:

É notável o dom de profeta nas páginas do Novo Testamento porque a igreja do primeiro século ainda estava sob o período da revelação das Escrituras. E muita profecia ainda tinha que ser dada. Para você ter uma ideia, na era apostólica não havia ainda, nas primeiras décadas, nenhum texto do Novo Testamento. Daí porque Paulo cita-os (veja Ef.4.11; 1Co.12.28,29; 14.29,32,37); bem como Lucas (veja Atos 11.27; 13.1; 15.32; 21.10). E também os Evangelhos (veja Lc.2.36; Mt.11.9-11). Os demais textos do Novo Testamento quando falam de profetas, referiam-se aos do Antigo Testamento, aos profetas anônimos ou se referem aos falsos profetas, que é previsão bíblica de que eles apareceriam para enganar a muitos (ver Mt.7.15; 24.11, 24.24; Mc.13.22; Lc.6.26; At.13.6; 1Jo.4.1,4). São chamados de “falsos” porque suas profecias são mentirosas, são contrárias a Palavra de Deus ou não se cumprem. (ver Dt.18.22; 13.1-3; Ez.13.3; Jr.14.14). A palavra “profetas” no NT tem um total de 88 ocorrências na versão ARA e 63 no singular.

Alguns teólogos pentecostais concluem que quem tem o dom de profecia é profeta. Todavia, os dois dons são citados separadamente (Ef.4.11, 1Co.12.10; Rm.12.6). E possuem uma carga de responsabilidades distintas: Os profetas fizeram o fundamento da igreja (Ef.2.20), revelaram coisas relacionadas ao fim dos tempos (profecias escatológicas. Ver 2Pe.1.20,21. Exemplo: Zacarias, Ezequiel, Daniel, João do Apocalipse, Paulo em algumas de suas epístolas, etc.). Revelaram sobre o ministério do Messias (Exemplo: Moisés, Isaías, Miquéias, etc.). Enquanto que o dom de profecia não trata dessas coisas, mas simplesmente de edificar, consolar e exortar a igreja (1Co.14.3); profetizar para as pessoas revelando assuntos pessoais (idem v.24,25). Observe que Paulo fala sobre o dom de profecia no capítulo 14 dos versos 1 a 25, mas quando ele chega ao verso 29 ele inicia a frase “Tratando-se de profeta...” (tradução ARA, BKJ e NVI) passando a trazer orientações sobre outro dom: o de profeta. Paulo aqui distingue claramente o dom de profeta do dom de profecia. Em outras traduções a frase começa “E falem dois ou três profetas...” (ACF); “Que dois ou três profetas falem...” (AXXI); “Quanto aos profetas...” (BJ); “E falem dois ou três profetas” (ARC); “Falem os profetas...” (SB Britânica); “Quanto aos profetas...” (BAM); enfim, as traduções demonstram que o início da frase no verso 29 Paulo começa a falar de outro dom, diferente do que ele vem falando nos versos anteriores. Podem até variar as colocações das palavras, mas o sentido é o mesmo.

Agora, percebemos uma concordância nas traduções ARA, BKJ, NVI, BJ e BAM. Essas traduções fazem correlação ao texto grego, Textus Receptus, onde a frase começa: “prophêtai...” (profeta, no singular). No verso 32 é que vai para o plural “prophêtais” (profetas). Isso ocorre, porque fazendo uma comparação com os demais textos gregos: Alexandrino ou Texto Crítico e Texto Majoritário ou Bizantino, não há variantes nesse trecho.

Conclusão

Todos os intitulados "apóstolos" e "profetas" hoje estão usurpando desses dons exclusivos dos tempos bíblicos para fins próprios ou enganados pelas sutilezas do Diabo. Ellen G. White, Joseph Smith Jr, Maomé, William M. Branham, os Papas (que revogam autoridade apostólica), Alziro Zarur, Sun Myung Moon, David Brandt Berg, Charles Taze Russell, Joseph Franklin Rutheford, Alan Kardec, esses profetas e apóstolos evangélicos brasileiros e estrangeiros, são todos espúrios.

A igreja não vai ser melhor ou ser avivada ou trazer os milagres e prodígios dos tempos bíblicos para o presente só por causa da aplicação desses dons na atualidade. Ordenar líderes a Apóstolos ou Profetas não é a solução dos problemas da igreja. A grande questão da manifestação do poder divino nos tempos bíblicos não estava no dom de profeta ou apóstolo, mas na manifestação divina em se revelar para que as Escrituras fossem confeccionadas, cuja parte culminante veio com o seu filho Jesus Cristo. Deus não vai se revelar novamente por causa de um movimento evangélico neopentecostal. A revelação divina que Deus tem para fazer é a sua vinda pessoal e visível na pessoa de seu filho Jesus Cristo. Essa é a revelação que falta acontecer; será uma revelação definitiva. E é essa que os cristãos devem esperar que aconteça. Maranata!

Quanto a igreja ser melhor ou avivada, superar seus problemas, isso se dá com o seu comprometimento com a Bíblia, a santificação e seu relacionamento com Deus. É só olhar para a história da igreja e perceber que os seus picos de avivamento se deram quando a Bíblia, a santificação e o relacionamento com Deus tiveram mais destaque. Essa é a verdade. E não uma "restauração" de dons como de apóstolo ou profeta que vai fazer isso.

Sobre trazer para o presente os milagres e prodígios dos tempos bíblicos não virá por uma "restauração apostólica e profética". Deus é livre para escolher quando deve operar milagres e distribuir sinais e maravilhas entre seu povo e quando deve interrompê-los. Os milagres de Deus no tempo dos patriarcas: Abrão, Isaque e Jacó, por exemplo, com a morte de Jacó, somente depois de IV séculos é que Deus torna a realizar maravilhas no meio de seu povo através de Moisés, seu servo. Nesse intervalo de silêncio, viveram e morreram 15 ou 20 gerações do povo da antiga aliança. O mesmo vale para hoje. O recebimento de um milagre bem como do poder de operar sinais e maravilhas acontece segundo os propósitos soberanos de Deus e não pode ser controlado ou obtido pela vontade humana. Isso implica em dizer que Deus desconsidera todas as exigências de que deve haver milagres. Todos os sinais, maravilhas, prodígios, etc, são concedidos quando Deus assim desejar. (Eu escrevi um texto que fala sobre isso. Você pode baixar aqui ).

"Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente". (1Co.12.11).

"Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia". (Rm.9.16).

Referências:
Bíblia King James versão português – BKJ 
Bíblia Almeida Revista e Atualizada – ARA (a mais usada nesse estudo)
Bíblia Almeida Revista e Corrigida – ARC 
Bíblia Nova Versão Internacional – NVI 
Bíblia Ave Maria – BAM 
Bíblia de Jerusalém – BJ
Bíblia Almeida Corrigida Fiel – ACF 
Bíblia Almeida XXI – AXXI 
Bíblia Sociedade Bíblica Britânica – SB Britânica
Novo Testamento grego transliterado: http://dubitando.no.sapo.pt/nt_gr.htm 
Bíblia digital Online, versão 3.0. Com texto grego Textus Receptus e léxico grego de Strong

Recomendo aos leitores do blog a leitura do livro Apóstolos, por Augustus Nicodemus
E assistam ao vídeo: Não Há Apóstolos Hoje

Dúvidas e esclarecimentos escreva para: web-assessoria@bol.com.br
Direito de resposta: coloque abaixo seu comentário e aguarde a liberação do moderador do blog.

Nenhum comentário: