quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

PROPOSTAS DE REFORMAS DA IGREJA INSTITUCIONAL - PARTE FINAL



Trechos de minha monografia sobre os "Desigrejados":

Não se pode ficar inerte e alheio à derrocada da instituição cristã. As Escrituras dizem: “Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano”. (1Pe.2.13). Ora, se a Palavra orienta a sujeitar a autoridade ou instituição “humana” quanto mais à instituição criada, organizada e utilizada pela igreja orgânica. A igreja de Cristo na terra, em suas congregações, deve buscar se renovar. Buscar uma reforma em seu funcionamento focando-se mais na Palavra de Deus e em suas doutrinas, minimizando mais os seus dogmas. Enfim, é necessária e urgente a reflexão séria na busca de ideias que devam ser implementadas como uma “luz no fim do túnel” para a sofrida igreja cristã:

Implantação de pequenos grupos nos lares 

As igrejas domésticas tem sido uma alternativa dos “desigrejados” para sobreviverem como cristãos diante do cenário desarrumado das instituições evangélicas. Este seria o primeiro passo para a instituição eclesiástica resgatar o respeito e buscar reformas consideráveis. O ministério de igrejas nos lares implantado em pequenos grupos de membros da instituição, com lideranças confiáveis, deve ser muito estimado pela congregação se essa realmente deseja voltar aos princípios bíblicos do que é ser igreja. Não se trata da anulação dos cultos da instituição, de forma alguma, mas promover atividades que resgatem um ambiente de família, de comunhão. Este modelo certamente será também muito útil para a obra da evangelização. Timothy J. Keller (2002. P.127,128) dissertando sobre pequenos grupos escreve: 

Como nossa sociedade tem se transformado! Menos e menos pessoas vivem em uma região na qual que elas nasceram e cresceram e que esteja repleta de relacionamentos familiares e de velhos amigos. Porém tanto a liderança da igreja como os membros da congregação frequentemente esperam que a nutrição aconteça através de comunicação informal e pessoal, e relacionamentos não planejados entre (usualmente) pastores e membros. Foram quase dois anos para nós até que percebêssemos que a abordagem tradicional não funciona em uma grande cidade. É através da rede de “células”, pequenos grupos sociais, que podemos nutrir e cuidar uns dos outros. Logo comecei a alertar as pessoas: “Se você é um membro ou freqüentador regular da igreja [...] e está passando por problemas espirituais, ou está doente, ou tem algum tipo de necessidade grave em sua vida. Certamente iremos tentar ajudá-lo. Mas caso você não fizer parte de um grupo e formos lentos em responder, você realmente não tem o direito de reclamar. É através de pequenos grupos que podemos prover cuidados e oportunidades através do aprendizado, e é através dos grupos que sabemos rapidamente se você tem uma necessidade que o Corpo pode atender. Então, falando praticamente, se você não fizer parte de um grupo pequeno, você não está realmente fazendo parte da igreja”. 

Repaginação dos cultos visando aproximar os cristãos

Os cultos semanais da instituição podem ser reformulados numa atmosfera de comunhão deixando os ritos formais para cerimônias mais propícias. A igreja deve focar numa comunhão entre os irmãos regada a estudos da Palavra em grupos na própria instituição após o momento de louvores. Para isso o pastor deve investir e acreditar na força da Escola Bíblica. Uma ideia que até hoje, se bem equipada, pode suprir essa área. Os cultos não precisam começar obrigatoriamente logo com o louvor, pode se promover antes um momento de “partir do pão” com alimentos leves, simples de se fazer e trazer, como: café, chá, bolachas. Criando desta forma um agradável ambiente de confraternização pré-culto. Muitas ideias que não prejudiquem a ordem do culto ou desmereça sua importância, podem ser dadas para que esses cultos venham a ter um ambiente menos formal e mais familiar.

Equilibrar as formas de governo eclesiástico: episcopal e congregacional 

No decorrer dos tempos tem se observado que ambas as formas de governo, quando desvinculadas, são prejudiciais a igreja de Cristo. O governo episcopal, cujas decisões e direção parte do pastor local que está submisso a um pastor presidente de uma sede, foge do modelo neotestamentário de igreja. A leitura do livro de Atos dos Apóstolos demonstra que a igreja decidia suas causas de forma direta, como foi na escolha dos líderes em Atos 6, ou de forma representativa com os apóstolos e presbíteros no dilema da Lei ser ordenada aos cristãos gentios em Atos 15. Não existe no Novo Testamento nenhum episódio aonde tenha havido a inversão do modo de tomada de decisões em algo que se assemelhasse ao formato episcopal. O ideal é que a igreja adote um modelo congregacional moderado, cujas decisões e direção parte dos congregados em uma Assembleia Geral. O modelo que leva a uma democracia irrestrita deve ser evitado, pois usualmente tenta reprimir a autoridade constituída por Deus. Desta forma melhor alternativa para uma reforma na instituição evangélica seria um governo mesclando o formato episcopal com o congregacional. 

Um passo corajoso rumo à autonomia

Como as instituições evangélicas em sua maioria são de modelos episcopais, acompanha também o modelo de sede e filiais. Isso tem gerado uma imagem negativa muito grande. Quando surgem as igrejas pequenas (subcongregações) os pastores ficam como sendo gerentes, trocados em um cronograma que visa impedir que o mesmo se apegue a congregação e vice-versa. Evita-se assim a perca da congregação. Essas igrejas pequenas ficam a mercê do controle da sede e das decisões oriundas de lá. As finanças são repassadas para essa sede, enfim, tudo é controlado. Cria-se desta forma um modelo doentio, engessado, e sem liberdade de tocar a obra de Deus com a participação e visão do povo daquele lugar. Existe ainda o agravante de que esses modelos geram grande disputa de poder, riquezas e posses. Consequentemente tem gerado grandes divisões no meio evangélico. Essa problemática exige uma reforma urgente. A melhor estratégia seria o rompimento total com essas estruturas do poder.

Infelizmente existem sistemas religiosos fundamentados pelo homem para alimentar sonho de homens e não de Deus. Se essas instituições quisessem realmente passar por uma reforma deveriam também dar um passo corajoso rumo à autonomia. Seus pastores governariam as congregações junto com os congregados locais usufruindo de plena autonomia financeira, administrativa e missionária. Centralizando com as demais congregações apenas a confissão de fé, que seria a mais ortodoxa possível, sem muitos detalhes secundários. Focando-se nos fundamentos da fé cristã. Apelando sempre para a moderação, bom senso e equilíbrio nas questões secundárias e dogmáticas. 

Retorno aos cinco pontos da Reforma Protestante 

A igreja cristã evangélica, protestante, precisa voltar às suas raízes. Muito do que há de negativo na instituição eclesiástica vem por conta de seu afastamento aos cinco pontos da reforma protestante. Editado pelos reformadores desde o rompimento com a instituição: Igreja Católica Romana. Esses pontos são uma resposta aos cinco pilares básicos do catolicismo romano. O livreto editado pela RTM – Rádio Trans Mundial apresenta um contraste interessante e confrontante que levam todos a refletir: “Será que somos Católicos Romanos ou Evangélicos?” O palestrante, pastor e conferencista Itamir Neves escreve: 

Para a igreja católica daqueles e dos nossos dias estes eram conceitos aceitáveis: 1) A Escritura e a Tradição são as fontes das normas para os cristãos, para a própria igreja. 2) A fé e as obras é o que possibilitam o fiel justificar-se diante de Deus. 3) A graça os méritos são entendidos como meios para o relacionamento com Deus. 4) Cristo, Maria e a intercessão dos santos são o meio para chegarmos a Deus. 5) Deus, os santos e a hierarquia da igreja merecem o louvor e a gratidão dos fiéis [...]. Diante disso [...] o contraste entre a linha doutrinária católica e reformadora: 1) Afirmamos que somente a Escritura nos capacita a conhecer, entender e nos submeter ao plano salvífico divino. 2) Afirmamos que somente a fé e não por obras que somos justificados sendo a justiça de Cristo aplicada em nós. 3) Afirmamos que somente a graça de Deus nos chama e nos reconcilia consigo mesmo, independente de qualquer mérito que possamos apresentar. 4) Afirmamos que somente Cristo e seu sacrifício vicário é o caminho da salvação do nosso pecado. 5) Afirmamos que somente a Deus a gloria, adoração, louvor, submissão e reverência por seu maravilhoso plano de salvação elaborado na eternidade. (SOUZA, P.58,59. 2014). 

Assim, a instituição cristã deve fortalecer essas raízes e, em muitos casos, resgatar esses pontos que algumas já abandonaram faz tempo. O princípio do: Sola Scriptura (somente a Escritura), Sola Fide (somente a fé), Sola Gratia (somente a graça), Solus Christus (somente Cristo) e Soli Deo Gloria (somente a Deus a glória) formam a base teológica da instituição protestante, evangélica desde o seu surgimento.

O retorno a essa base vai expurgar muito lixo teológico produzido ao longo das décadas em que a instituição cristã evangélica se afundava em crise. E consequentemente vai estabilizar sua funcionalidade, pois hoje se vive uma época na igreja evangélica semelhante ao período medieval controlado pelo catolicismo romano com sua teologia meritória. Como apropriadamente cita Paulo Romeiro (2005. P.155):

Com o passar dos séculos, a doutrina da graça foi sendo mais e mais ofuscada, até que no fim da Idade Média perdeu bastante espaço para a crença e a prática das penitências difundidas pela Igreja. A Reforma Protestante surgida no século XVI na Alemanha e promovida por Martinho Lutero, João Calvino e outros foi uma reação contra a excessiva valorização das boas obras em detrimento da graça de Deus.

Deixar no passado os apóstolos e profetas 

Este assunto tem sido atualmente explorado e abusado pelas lideranças eclesiásticas. Resgatar estes dons do passado como título para líderes atuais é de uma arrogância ou ignorância fenomenal. O fato é que, notoriamente, algumas lideranças eclesiásticas se autodenominam de “apóstolos” ou “profetas”. Esta prática se constitui em mais um motivo para os “desigrejados” militantes expressarem suas críticas e desprezo a instituição eclesiástica. Todavia, acertadamente, o apóstolo Paulo revela serem essas duas atribuições bíblicas associadas ao “fundamento” da igreja de Cristo, cuja pedra principal é Jesus. Ele escreve: “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular”. (Ef.2.20). De modo notório tem-se aqui o fim dos dons de profetas e apóstolos, por uma dedução bem óbvia: a igreja já está fundamentada. Agora, a igreja de Cristo, depois de seu fundamento, segue o seu curso na sua edificação com a cooperação dos evangelistas, pastores e mestres da igreja, conforme Paulo apresenta mais adiante na carta supracitada (cf. Ef.4.11,12). Existe ainda o relato claro do livro de Atos dos Apóstolos, onde Pedro, quando na vacância de Judas Iscariotes, apresenta os critérios do apostolado: 

É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição. Então, propuseram dois: José, chamado Barsabás, cognominado Justo, e Matias. (At.1.21-23).

São apresentados acima dois critérios: convivência com o Cristo encarnado e testemunha de sua ressurreição. Portanto, a atribuição do título de apóstolo não tem base bíblica, bem como tem gerado abuso de poder e ostentação de superioridade aos demais líderes da igreja. Onde o próprio Jesus deixou bem claro a igualdade entre os irmãos. (cf. Mt.20.20-27). Augustus Nicodemus (2014) trabalhando o mesmo assunto faz a seguinte conclusão: “Você não precisa de apóstolos hoje, porque os verdadeiros já fizeram a sua obra”. Em sua outra obra (2011. P.25), escreve: “Fico com a impressão de que a inspiração dos „apóstolos‟ evangélicos contemporâneos não é Paulo ou um dos Doze, mas o atual bispo de Roma”.


Dúvidas e esclarecimentos escreva para: web-assessoria@bol.com.br
Direito de resposta: coloque abaixo seu comentário e aguarde a liberação do moderador do blog.

Nenhum comentário: