segunda-feira, 1 de setembro de 2008

LINHAS DE INTERPRETAÇÃO BÍBLICA



Quando nos deparamos com o texto bíblico, surgem várias interpretações. E é deste momento que nascem as correntes de pensamentos. Que podem ser prejudicial para a frágil unidade da Igreja Cristã ou podem ser edificante. Digo “frágil unidade” porque nosso conceito de “verdade” também é frágil. Apesar do grande número de livros evangélicos, igrejas, músicos, cantores, pastores, teólogos e apologistas, nossa credibilidade a respeito da Bíblia, da mensagem do evangelho e das doutrinas bíblicas deixa muito a desejar. Assim, a nossa unidade fica comprometida, porque biblicamente o que une a Igreja de Cristo é a verdade. Cristo orou por nossa união em João 17. E note que no verso 17 ele pede ao Pai: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade”. Ora se nos dedicarmos ao conhecimento da verdade iremos cada vez mais nos unir. Porque Jesus nos mostrou claramente na narrativa dos evangelhos que a verdade é uma só e que pode ser conhecida. Para não ser tão exaustivo em minha introdução, tomemos como exemplo as passagens de Jo.14.6: “...Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”. Observe que o artigo é DEFINIDO! Jesus não disse que era “um” caminho, ou “uma” verdade ou “uma” vida. Veja também Jo.8.32: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Note que Jesus apresenta a verdade “cognoscível”, ou seja, que poder ser conhecida.

Existem atualmente pelo menos quatro linhas de interpretação do texto bíblico: Ortodoxia, heterodoxia, ortodoxia generosa e a ultra-ortodoxia.


ORTODOXIA

A ortodoxia bíblica tem seu nascedouro na palavra empregada pelo Apóstolo Paulo como “Sã doutrina” em Tt.2.1; 1Tm.1.10 e 2Tm.4.3. Em Ef.2.20 ele chama de “fundamentos dos apóstolos e profetas”. Bem como Lucas ao escrever o livro de Atos dos Apóstolos usa a expressão “doutrina dos apóstolos” (At.2.42). Judas chama a ortodoxia da “fé que foi entregue aos santos” (Jd.3).

O cristão ortodoxo acredita que das várias interpretações que surgem do texto bíblico existe uma que será a “sã doutrina”. E isso ele faz com base nos padrões apostólicos e primitivos deixados pela Igreja no início da era cristã. E que foram definidos e formulados nos credos: Apostólico, Niceno, Atanasiano e Calcedoniano. E também com base nos princípios universalmente aceitos pela hermenêutica bíblica em suas classificações: gramaticais, históricos e teológicos. De onde nasce a teologia sistemática. As doutrinas essenciais ou fundamentais da fé Cristã.

Podemos dizer que a ortodoxia é o oposto da “heresia”. É a “sã interpretação” ou o “ensino correto” da Bíblia, que é favorável, respaldado e limitado na Palavra de Deus – a Bíblia.

Na ortodoxia a “verdade” anda em igualdade com o “amor”. O amor sem a “verdade” vira hipocrisia. E a verdade sem o amor não conseguirá distinguir o pecado do pecador.

O Apóstolo Paulo nos orienta a seguirmos a verdade em amor (Ef.4.15). E ele afirma que o amor não se alegra quando alguém faz o que é errado (1Co.13.6). Assim, na ortodoxia, o amor é verdadeiro e não hesita em dizer a verdade. Pois segundo a Bíblia: “...nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade”. (2Co.13.8). Pensamento bem diferente da civilização romana da época de Cristo, que desconhecia, bem como hoje, a existência de verdades absolutas. Percebemos isso nas palavras do governador romano entre 26 a 36 d.C., que condenou Jesus Cristo: “Perguntou-lhe Pilatos: Que é a verdade? Tendo dito isto, voltou aos judeus...” (Jo.18.38). Note que ele não fez uma pergunta a Cristo, mas um sarcasmo da declaração de Cristo: “... Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz”. Pois ele respondia a pergunta de Pilatos se ele era o rei dos judeus. E Jesus lhe respondeu que seu reino não era deste mundo, mas que veio para esse mundo dar testemunho da “verdade”. (idem v.36,37). Observe a narrativa de João sobre a atitude de Pilatos: “...Tendo dito isto, voltou aos judeus...”. Ou seja, ele não fez uma pergunta. Ele tinha um conceito relativista de “verdade” ou pensava que a verdade fosse incognoscível.

HETERODOXIA

A heterodoxia tem sua definição bíblica de “heresia”. Palavra empregada pelo Apóstolo Pedro em 2Pe.2.1 para designar uma interpretação ou ensino errado e destruidor da fé cristã. O Apóstolo Paulo também faz uso da palavra em Gl.5.20 considerando uma obra da carne. Onde nas versões em português atuais usa-se a palavra “facções”, porém nas mais próximas ao texto original usa-se a palavra “heresia”, a mesma citada por Pedro. Isso ocorre por causa da palavra grega “hairesis” que tem o significado de “seita” ou “partido” que escolhe seus próprios princípios, “dissenções de opinião”, “capturar”, “pegar”.

A heterodoxia difere do ensino ortodoxo de uma maneira significante. Ela não se submete a nenhum padrão e ainda questiona a autoridade dos padrões colocados pela Igreja Cristã. Os princípios colocados pela ortodoxia não são respeitados, ou seja, a heterotodoxia atropela os princípios da hermenêutica bíblica, não reconhece as doutrinas essenciais da fé cristã (a teologia sistemática) e nem os credos primitivos.

Tratando-a na sua raiz, a heterodoxia é a “heresia” propriamente dita. É a interpretação equivocada do texto bíblico. A heresia levanta opiniões contrárias, excedentes e deturpadas da Bíblia Sagrada. São opiniões “contrárias” porque não passa de um sofisma ou pretexto fora de contexto; são “excedentes” porque suas conclusões ultrapassam aquilo que a Bíblia está dizendo e são “deturpadas” porque , apesar de um aparente “respaldo bíblico”, distorce o verdadeiro sentido do texto.

ORTODOXIA GENEROSA

Como o adjetivo que a acompanha já denuncia, é uma ortodoxia que procura abrir diálogo com outras religiões que tem, e até as que não tem, ligação com a Bíblia Sagrada.

A ortodoxia generosa ou neo-ortodoxia, busca colocar o amor acima da verdade. Assim, em nome do “amor”, se sacrifica conceitos, princípios, padrões e marcos que foram estabelecidos pela Igreja de Cristo. Por isso, toma a mesma atitude da heterodoxia, rejeitando ou desconstruindo os princípios da hermenêutica bíblica, as doutrinas essenciais da fé cristã (a teologia sistemática) e os credos primitivos. E tem por vertente: a filosofia, o relativismo e o racionalismo. Segundo a neo-ortodoxia, não há uma verdade absoluta, e numa linguagem filosófica procura encarar o texto bíblico com puro racionalismo desraigado da fé. Por isso é flexível e submissa a constantes ré-exames e reflexões, a infinita reformulação, adaptando-se a realidade da pós-modernidade.

Notem que se Cristo fosse fazer uso da ortodoxia generosa, ele deveria ter tradado com menos aversão a seita dos fariseus, saduceus e herodianos. Facções judaicas que Cristo mais reprovou pelo fato deles estarem fazendo coisas erradas (Mt.23.13-36). Essa gente não era de linha ortodoxa, talvez se achavam que fossem, mas quando vemos a declaração de Jesus: “... Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus”. (Mt.22.29). Percebemos que eles eram ignorantes ao que estava escrito bem como ao que estava se cumprindo na Escritura sobre Jesus. Na verdade, eles eram “legalistas”. Termo que a ortodoxia generosa usa de maneira imprópria para criticar a ortodoxia sem a sua “generosidade”. Pois, à luz da Bíblia, “legalismo” é a idéia de justificação pelas obras, a fixação imprópria de regras de conduta que são colocadas como necessidade para a salvação e a negligência ou a ignorância em relação à graça de Deus. Enquanto que a ortodoxia é a reunião de doutrinas cristãs essenciais. Inclusive a doutrina da salvação pela graça e não por obras (Ef.2.8,9).

Ainda dentro da ortodoxia generosa propriamente dita encontramos dois segmentos, creio eu, foram estes que deram motivos para o surgimento dessa neo-ortodoxia:

l) Não-ortodoxos
São aqueles que se desviam da ortodoxia até certo ponto, embora não abrace necessariamente a heresia explícita.

2) Sub-ortodoxos
São aqueles menos ortodoxos. Não são o tanto quanto deveriam ser. Mas não são explicitamente contrários a ortodoxia. Se detêm mais com a prática (ortopraxis).

ULTRA-ORTODOXIA

Para finalizar, vamos falar de uma corrente que podemos, por assim dizer, radical e extrema que colocam a verdade acima do amor. Onde vidas não são poupadas e se apresenta como “dona da verdade”.

A ultra-ortodoxia é um zelo extremo e tão excessivo, que o lugar de Deus como “juiz” e “investigador” das nossas almas é usurpado. Tornando-se aquilo que deveria ser a “sã doutrina” em “santa inquisição”. Nessa abundância descontrolada de zelo não há na verdade uma preocupação ou cuidado com as vidas que se desviam da ortodoxia. A preocupação é “condenar” e não “compadecer” ou “esclarecer”. A Palavra de Deus nos admoesta sobre isso:

“Antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós”. (1Pe.3.15).

“A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um”. (Cl.4.6).

“E compadecei-vos de alguns que estão na dúvida”. (Jd.1.22).

“Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina”. (2Tm.4.2).

Sola Scriptura


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